José Cabral, aviador: um herói desconhecido

A primeira ideia foi escrever sobre um piloto de que conhecia apenas o nome: José Cabral. Chegara até ele ao ler, nem me recordo em rigor onde, uma referência às elevadas condecorações que recebera pelo contributo à causa dos Aliados na Segunda Guerra Mundial, no que para mim era então apenas a linha aérea do Norte de África, a ligar Lisboa a Marrocos.

Um herói desconhecido, eis como me surgia nesses primeiros tempos de imprecisa ideia e errática procura. Incerto quanto ao caminho a seguir, animava-me, porém, a vontade de ir ao seu encontro e exumá-lo do pó do esquecimento, fazendo-me eco de uma consideração pública que lhe tinha sido negada. Como seria possível que, tendo recebido galardões de honra de países estrangeiros fosse um simples desconhecido no seu próprio País?

Depois, não sei que outro acaso me cruzou com o lendário filme Casablanca e concretamente com a emblemática cena final, a da partida do avião para Lisboa, na altura sem saber que a aeronave, a ser real, deveria ser a do piloto cuja vida eu já seguia, tentando reconstitui-la.

Mas porque o cinema é a arte da fantasia e aquele filme um prodígio de sucesso pela improvisação. E assim o avião que a Hollywood criou, para acomodar num canto de estúdio e assim se desse fecho a um filme cuja rodagem estava já dada como encerrada, não corresponde ao aparelho que então fazia aquele percurso.

Cheguei a essa conclusão porque, tendo começado em busca da biografia de um piloto, evoluído para o estudo de uma filmagem, encontrava-me agora a pesquisar a história de uma companhia aérea, a Aeroportuguesa, antecessora da TAP, e ao estudá-la, indissociavelmente surgiu o nome do Comendador António Medeiros e Almeida, em cuja Casa-Museu se guarda ainda parte de um espólio que me foi permitido consultar.

O falso avião escondia, afinal, o verdadeiro, a cena desconsiderava o piloto, o símbolo que a carlinga da aeronave, fabricada em cartão, ostentava era o da Air France, escondia a verdade. Tudo o mais estava por descobrir.

Os anos passados. Hoje decidi regressar a este espaço e a esta investigação: retomá-la e ir dando conta.